Mulheres na ciência: desafios, caminhos e a importância de ocupar espaços na Estatística e na pesquisa
- lincaufba
- 29 de abr.
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Atualizado: 30 de abr.

A presença feminina na ciência tem avançado nas últimas décadas, mas ainda enfrenta desafios importantes — especialmente em áreas como Estatística e outras ciências exatas. Questões como desigualdade de oportunidades, menor acesso a posições de liderança e barreiras estruturais no ambiente acadêmico mostram que ainda há um caminho significativo a ser percorrido para garantir mais equidade.
Nesta entrevista, conversamos com a professora Leila Amorim, docente titular da UFBA e referência em Bioestatística, que compartilha sua trajetória na ciência e reflete sobre o papel das mulheres na produção de conhecimento. Ao longo da conversa, ela destaca não apenas os obstáculos enfrentados, mas também a importância de ampliar a presença feminina em espaços estratégicos, promovendo diversidade de perspectivas e fortalecendo a pesquisa científica.
A professora também aponta caminhos para transformar esse cenário, como o incentivo à formação de meninas e jovens mulheres na ciência, o fortalecimento de políticas institucionais e a criação de ambientes acadêmicos mais inclusivos e seguros. Mais do que uma reflexão, esta entrevista é um convite a pensar a ciência como um espaço cada vez mais diverso, representativo e comprometido com o desenvolvimento social.
Professora Leila, sua trajetória passa pela Estatística, Saúde Coletiva e Bioestatística. Como se deu essa construção interdisciplinar ao longo da sua carreira?
Existe uma forte conexão entre a Estatística e as ciências da saúde. Muitos dos avanços em métodos estatísticos, especialmente desde o início do século passado, foram impulsionados por questões científicas oriundas da pesquisa em saúde. Antes de ingressar na graduação em Estatística, iniciei minha trajetória acadêmica no curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde tive meu primeiro contato com a Estatística, por meio do componente curricular bioestatística. Anos depois, comecei o Bacharelado em Estatística na Universidade Federal da Bahia (UFBA), ao mesmo tempo em que concluía minha graduação em Biologia, já na Universidade Católica de Salvador (UCSAL). Ao concluir o curso de Biologia, pretendia ingressar em um mestrado em Genética ou Zoologia, programas que ainda não existiam em Salvador naquela época. Por isso, decidi finalizar primeiro a graduação em Estatística antes de seguir para o mestrado.
Entretanto, na segunda metade do curso na UFBA, tive a oportunidade de participar do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), atuando em projetos da Escola de Enfermagem e, posteriormente, do Instituto de Saúde Coletiva (ISC). A partir desse momento, minha trajetória profissional passou a se conectar profundamente às questões metodológicas da pesquisa em Saúde Coletiva, particularmente na Epidemiologia. Nesse contexto, tive a oportunidade e o privilégio de colaborar em diversos projetos de grande porte e relevância científica, conduzidos por pesquisadores renomados do ISC, em especial aqueles desenvolvidos sob a orientação e coordenação do Professor Dr. Maurício L. Barreto, cuja mentoria científica exerceu profunda influência sobre muitas das escolhas que marcaram minha trajetória acadêmica.
Ao concluir a graduação em Estatística, meu principal interesse passou a ser a capacitação em Bioestatística, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da Estatística aplicada, sobretudo, aplicada a questões relevantes para a Saúde Pública.
O que motivou sua decisão de seguir para o doutorado e pós-doutorado na University of North Carolina at Chapel Hill? De que forma essa experiência internacional impactou sua visão de pesquisa?
Devido à minha forte vinculação com a pesquisa desenvolvida no ISC/UFBA, realizei o mestrado em Saúde Comunitária nessa instituição, sob a orientação do Professor Dr. Nelson Oliveira e coorientação do Professor Dr. Maurício L. Barreto. O trabalho teve como foco a modelagem estatística de dados correlacionados, buscando responder questões relacionadas ao efeito de diferentes tipos de tratamento na redução da ocorrência e da duração da diarreia infantil. Naquele período, o Professor Nelson Oliveira, docente do Departamento de Estatística e meu professor em diversos componentes curriculares durante a graduação em Estatística na UFBA, havia retornado recentemente de seu pós-doutorado na University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-Chapel Hill), nos Estados Unidos, onde anteriormente também concluíra o doutorado em Bioestatística. Além de suas atividades no Departamento de Estatística, ele colaborava com o ISC, ministrando disciplinas na pós-graduação e participando de diversos projetos de pesquisa.Durante o mestrado, aprofundamos o estudo de modelos com efeitos aleatórios — também conhecidos como modelos multiníveis — aplicados à análise de dados categóricos e de sobrevivência, metodologias então emergentes e ainda pouco difundidas na área da saúde. Essa experiência interdisciplinar, com orientação conjunta de pesquisadores da Estatística e da Epidemiologia, consolidou meu interesse em seguir para o doutorado em Bioestatística.
No início dos anos 2000, ainda não existiam programas dessa natureza no Brasil. Por essa razão, decidi seguir os passos de meu orientador de mestrado e submeter projetos de pesquisa às agências de fomento CNPq e CAPES para obtenção de bolsa de doutorado no exterior. Candidatei-me ao doutorado em Bioestatística da UNC-Chapel Hill, nos Estados Unidos, e ao doutorado em Estatísticas Sociais e Demografia da Universidade de Southampton, no Reino Unido. Tendo sido aprovada em ambos os programas e contemplada com bolsas das duas agências, optei por cursar o doutorado em Bioestatística na UNC-Chapel Hill, com financiamento da CAPES. Minha experiência no doutorado no exterior foi extremamente enriquecedora. Aproveitei essa oportunidade para consolidar minha formação em teoria estatística, cursando um amplo conjunto de disciplinas oferecidas pelo Departamento de Bioestatística da UNC nos níveis de mestrado e doutorado. Paralelamente, atuei durante quatro anos como assistente de pesquisa em um grande estudo longitudinal sobre doenças cardiovasculares em crianças e adolescentes, conduzido por pesquisadores da Escola de Enfermagem da UNC, sob coordenação geral da Professora Dra. Joanne Harrell, com a participação do Professor Dr. Shrikant Bangdiwala, docente do Departamento de Bioestatística, que foi um importante mentor durante minha permanência nos Estados Unidos. Também tive a oportunidade de ser aluna de destacados pesquisadores da Estatística, como os Professores Drs. Pranab K. Sen, Jianwen Cai, Joseph Ibrahim, Gary Koch, John Preisser e Danyu Li, entre vários outros, todos referências indiscutíveis de excelência acadêmica.
Além disso, convivi com estudantes e pesquisadores de diferentes partes do mundo e de várias áreas do conhecimento, experiência que fortaleceu minha compreensão sobre a relevância da pesquisa interdisciplinar para o avanço da ciência. Ao retornar ao Brasil, estava motivada a aplicar e disseminar, em minhas atividades de ensino e pesquisa na UFBA, os conhecimentos e experiências adquiridos ao longo dessa trajetória internacional.
Ao longo da sua trajetória, quais momentos ou projetos foram decisivos para consolidar sua atuação em Bioestatística e como se deu o processo de construção da sua identidade científica em uma área tão interdisciplinar?
As experiências vivenciadas ao longo do meu percurso de formação profissional — desde a iniciação científica durante a graduação em Estatística, passando pelo mestrado no ISC e pelo doutorado em Bioestatística na UNC-Chapel Hill — foram, sem dúvida, fundamentais para a construção da minha identidade científica. Merece destaque minha inserção, como pesquisadora da UFBA, no projeto SCAALA (Social Changes, Asthma and Allergy in Latin America Programme), logo após meu retorno do doutorado, em 2006. Nesse projeto, coordenei, juntamente com a Professora Dra. Rosemeire Fiaccone, o grupo de estatística. O SCAALA reunia uma equipe marcadamente interdisciplinar, composta por médicos, nutricionistas, epidemiologistas, imunologistas, psicólogos e estatísticos, além da participação de pesquisadores internacionais. As questões científicas relacionadas à compreensão da asma e da atopia em crianças e adolescentes impulsionaram a ampliação de minha agenda de pesquisa, que passou a incluir modelagem com variáveis latentes, inicialmente por meio de modelos de equações estruturais. Essas questões motivaram diversos projetos de pesquisa que venho coordenando desde então, financiados por agências de fomento, como FAPESB e CNPq, além de constituírem tema central de trabalhos desenvolvidos com alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado. Trata-se de uma linha de investigação essencialmente interdisciplinar, cuja consolidação somente foi possível graças às oportunidades de colaboração construídas ao longo de minha trajetória acadêmica.
Outro momento decisivo teve início em 2014, quando uma equipe de pesquisadores do ISC, liderada mais uma vez pelo Professor Dr. Maurício Barreto, propôs avaliar o impacto de políticas de proteção social sobre indicadores de saúde a partir de bases de dados do Ministério do Planejamento. Essa iniciativa levou, em 2016, à criação do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), na Fiocruz-Bahia. A partir de minha atuação como pesquisadora do Cidacs, em colaboração com uma equipe diversa de especialistas, surgiu meu interesse por outra importante área de desenvolvimento metodológico: a inferência causal. Esse campo tornou-se central na criação do grupo de pesquisa LInCa, voltado ao estudo de métodos estatísticos para análise de dados complexos, atualmente sob minha coordenação.
O grupo também possui caráter interdisciplinar, reunindo estatísticos, economistas, epidemiologistas, cientistas da computação e médicos. Além disso, tenho participado de equipes multidisciplinares em diferentes temas de pesquisa, como estudos sobre HIV/AIDS, coordenados pela Professora Dra. Inês Dourado, e investigações sobre doenças crônicas, especialmente cardiovasculares e diabetes, no âmbito do ELSA-Brasil, atualmente coordenado na Bahia pela Professora Dra. Sheila Alvim. Minha principal inspiração científica tem origem nas perguntas formuladas por colaboradores de diversas áreas, especialmente da Saúde Pública, que frequentemente não podem ser respondidas por métodos tradicionais ou exigem, para sua adequada compreensão, o desenvolvimento e a aplicação de metodologias estatísticas sofisticadas e inovadoras.
Como você avalia sua trajetória como liderança na área de Bioestatística — desde sua carreira como docente e pesquisadora na Universidade Federal da Bahia até sua indicação para a Academia de Ciências da Bahia — e de que maneira essas experiências moldaram sua visão sobre o papel da Estatística na sociedade?
Sinto-me privilegiada e realizada com minha trajetória acadêmica na área de Estatística, construída ao longo dos últimos 30 anos como docente da UFBA. Esse percurso foi marcado tanto pela concretização de grandes objetivos — como a realização do doutorado em Bioestatística no exterior — quanto por conquistas graduais, como a aprovação de projetos de pesquisa em editais de agências de fomento. A mentoria, o apoio e a colaboração de inúmeros pesquisadores, tanto da Estatística quanto da Saúde Pública, conduziram-me a um espaço criativo e genuinamente interdisciplinar. Esse ambiente consolidou-se como terreno fértil para minhas escolhas acadêmicas e profissionais, servindo de base para minha compreensão sobre o papel essencial da Estatística e da Bioestatística na interpretação da sociedade sob múltiplas perspectivas — sociais, comportamentais, culturais, biológicas e econômicas, entre outras.
Nesse período, também tive a oportunidade de assumir diferentes funções administrativas na UFBA, entre elas a Coordenação do Colegiado do Curso de Bacharelado em Estatística, a Vice-Chefia e a Chefia do Departamento de Estatística, além da Vice-Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Estatística e Ciência de Dados (PPGECD). Atuei ainda em comitês de assessoramento do PIBIC-UFBA e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB). Essas experiências ampliaram significativamente minha formação institucional, ao proporcionar vivências complementares às atividades de ensino, pesquisa e extensão. Também exerço a função de editora associada da revista científica Cadernos de Saúde Pública, periódico em que todas as editoras-chefe e a maioria dos editores associados são mulheres. Esse contexto é particularmente relevante diante da ainda reduzida presença feminina em posições de liderança acadêmica, capazes de servir como referência e oferecer mentoria às novas gerações de cientistas. Atualmente, coordeno dois grupos de pesquisa cadastrados no CNPq, tendo sido uma das fundadoras do LInCa, iniciativa voltada ao fomento da inovação e à promoção de colaborações interdisciplinares. O grupo busca contribuir para a formação de novos talentos e para o enfrentamento de desafios estratégicos ao desenvolvimento científico e tecnológico do país.
Mais recentemente, assumi, com grande alegria, a posição de Acadêmica Titular da Academia de Ciências da Bahia (ACB), na área de Ciências Exatas, Agrárias e da Terra. Senti-me profundamente honrada por ser a primeira bacharela em Estatística a integrar a ACB e por ter a oportunidade de apoiar iniciativas voltadas à popularização da ciência no Estado da Bahia. Minha trajetória acadêmica tem moldado minha visão sobre a relevância da Estatística para a sociedade e fortalecido meu compromisso com a promoção de diálogos interdisciplinares, especialmente em temas relacionados à Bioestatística e à Saúde Pública. Busco, assim, contribuir para a difusão do conhecimento e para a integração de metodologias estatísticas inovadoras em favor do desenvolvimento econômico, social e cultural da população brasileira.
Quais desafios ainda dificultam a presença e ascensão de mulheres em áreas como Estatística e outras ciências exatas, e que iniciativas poderiam fortalecer a participação feminina na ciência e na sociedade?
Apesar dos avanços alcançados, a desigualdade de gênero ainda persiste no meio acadêmico, especialmente nos cargos de liderança, como chefes de laboratórios e grupos de pesquisa, diretoras de instituições de ensino e pesquisa, além de editoras-chefe e editoras associadas de revistas científicas de prestígio. Esse cenário é ainda mais evidente em áreas nas quais as mulheres permanecem sub-representadas, como Física, Engenharia, Computação, Estatística e Matemática. A discriminação, o assédio e processos de avaliação enviesados continuam restringindo as oportunidades de liderança feminina. No campo das publicações científicas, mulheres ainda publicam menos em periódicos de alto impacto, ocupam com menor frequência posições estratégicas de autoria e tendem a receber menos citações, o que compromete métricas de avaliação, reconhecimento e visibilidade.
Além disso, frequentemente enfrentam maiores dificuldades para obter financiamento e liderar projetos de grande porte, o que pode limitar sua capacidade de manter uma produção científica contínua e competitiva. Diante desse contexto, torna-se essencial promover e valorizar a liderança feminina na ciência, ampliando a presença de mulheres em espaços de tomada de decisão. Sua atuação nesses ambientes não apenas favorece a diversidade de perspectivas, como também cria referências importantes e amplia oportunidades de mentoria para as novas gerações. Também é fundamental incentivar meninas e jovens mulheres a se aproximarem da ciência desde cedo, inclusive por meio da iniciação científica, ampliando horizontes profissionais, fortalecendo a autoconfiança e contribuindo para trajetórias mais sólidas nas carreiras científicas. Além disso, a adoção e o fortalecimento de políticas públicas e institucionais são indispensáveis para enfrentar o assédio, o machismo e a misoginia no ambiente acadêmico e científico. Medidas como canais seguros de denúncia, processos transparentes de apuração e ações educativas permanentes contribuem para a construção de espaços mais seguros, inclusivos e equitativos.
De forma geral, como a Bioestatística — especialmente no uso de metodologias inovadoras e análise de dados complexos — contribui para melhorar políticas e sistemas de saúde?
Inicialmente, gostaria de esclarecer que, em minha concepção, as denominações Bioestatística e Estatística são equivalentes, distinguindo-se principalmente pelo contexto de aplicação. No caso da Bioestatística, a motivação central para o uso de métodos estatísticos já existentes e para o desenvolvimento de novas metodologias decorre dos desafios impostos pelas ciências da saúde, como Biologia, Medicina, Saúde Pública e Nutrição, entre outras. Nesse contexto, as metodologias estatísticas têm desempenhado papel essencial na pesquisa quantitativa em saúde.
Diante do crescimento expressivo da disponibilidade de dados estruturados, da formulação de modelos conceituais cada vez mais sofisticados e da obtenção de informações provenientes de amostragens complexas ou de estruturas de dependência variadas, a produção científica em Bioestatística/Estatística tem se expandido significativamente. Esse avanço tem aproximado a área de questões centrais para a sociedade, ao oferecer métodos analíticos mais adequados para subsidiar tomadas de decisão robustas relacionadas às políticas públicas, em geral, e, particularmente, à gestão dos sistemas de saúde.
Qual é o papel dos grupos de pesquisa que você coordena, como o LInCa, na produção de conhecimento e formação de novos pesquisadores, e quais são os principais desafios enfrentados pela pesquisa em Bioestatística?
Nos grupos de pesquisa que coordeno na área de Estatística — o LInCa e o Grupo de Métodos Estatísticos Aplicados e Computacionais — o desenvolvimento e a disseminação de métodos estatísticos desempenham papel central na formação de alunos de graduação e pós-graduação, na consolidação de novos pesquisadores e na geração de novas questões científicas. Os projetos conduzidos por seus integrantes contam com a participação ativa de docentes, pesquisadores e estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado, estimulados ao pensamento crítico e à participação em eventos acadêmicos para troca de conhecimentos, estabelecimento de novas parcerias e divulgação de seus trabalhos. A produção de conhecimento desses grupos é difundida por meio de artigos científicos, capítulos de livros, tutoriais, cursos de extensão, palestras, atualização de componentes curriculares e apresentação de trabalhos em eventos científicos.
Para que grupos de pesquisa cumpram plenamente seu papel social, são necessários recursos financeiros que assegurem bolsas estudantis, participação em eventos e cursos de capacitação, além da aquisição de livros e equipamentos. Esse permanece como um dos principais desafios para a manutenção e o fortalecimento da pesquisa nas instituições públicas brasileiras. Na área de Estatística/Bioestatística, observa-se ainda a redução de recursos destinados ao desenvolvimento metodológico mais amplo, uma vez que muitos editais atuais priorizam temas específicos, como sustentabilidade, agricultura e saúde. Esse cenário dificulta o financiamento de pesquisadores cuja atuação se concentra no desenvolvimento de métodos estatísticos aplicáveis a diferentes áreas. Soma-se a isso o reconhecimento ainda limitado, tanto na comunidade científica quanto no público em geral, da importância do avanço metodológico (estatístico) para responder a questões relevantes da sociedade.
Embora os métodos estatísticos sejam centrais para a pesquisa quantitativa, profissionais da área nem sempre integram a liderança de grandes projetos financiados. Também é fundamental ampliar o diálogo da comunidade acadêmica da área da estatística com diferentes setores da sociedade, incluindo instituições públicas, empresas privadas e organizações da sociedade civil. Da mesma forma, a divulgação científica da área ainda precisa avançar, especialmente no desafio de traduzir conhecimentos técnicos para uma linguagem acessível ao público em geral.
A inferência causal tem ganhado cada vez mais destaque em diferentes áreas. Na sua visão, por que ela é tão importante para a pesquisa aplicada, especialmente na saúde?
O questionamento sobre causas e efeitos acompanha a filosofia e a ciência há séculos, remontando à Antiguidade, com pensadores como Aristóteles. Com o desenvolvimento da Estatística moderna, esse debate avançou de forma significativa, especialmente na primeira metade do século XX, a partir dos desenhos experimentais aplicados à agricultura e à medicina, com contribuições marcantes de autores como Neyman e Fisher nas décadas de 1920 e 1930. O termo inferência causal, contudo, passou a ser utilizado de forma mais sistemática no meio acadêmico a partir da década de 1990, difundindo-se amplamente na literatura estatística. Vale destacar que muitos métodos empregados para estimar efeitos causais também são conhecidos, na Econometria e na Epidemiologia, como métodos de avaliação de impacto, frequentemente baseados em desenhos quase-experimentais que buscam reproduzir, tanto quanto possível, as condições de experimentos randomizados. Na Epidemiologia e na Medicina, a discussão sobre causalidade é central para a compreensão dos processos saúde-doença.
Como muitas questões relevantes para a saúde pública não podem ser respondidas por meio de estudos controlados e randomizados, torna-se essencial a formalização de conceitos como confundimento, mediação, viés de seleção e causalidade reversa em modelos teóricos cada vez mais complexos. Esse cenário exige uma integração crescente entre a Epidemiologia e métodos estatísticos sofisticados, capazes de sustentar inferências causais a partir de dados observacionais. Essa mesma motivação explica a expansão dos métodos de inferência causal em diversas outras áreas, como marketing digital, inteligência artificial, aprendizado de máquina, clima e sustentabilidade. Além disso, a revolução computacional tem desempenhado papel decisivo ao tornar metodologias estatísticas modernas mais acessíveis. A rápida implementação desses métodos em softwares especializados, aliada à ampla disponibilidade de artigos, livros, tutoriais e cursos, tem facilitado o acesso de analistas de dados a ferramentas robustas para investigar relações causais.
Quais são os principais desafios metodológicos atuais na inferência causal quando lidamos com dados complexos do mundo real?
Apesar do grande volume de métodos estatísticos disponíveis para inferência causal, é importante reconhecer que as condições necessárias para a identificação causal são rigorosas e nem sempre viáveis em muitas situações práticas. Assim como ocorre com métodos estatísticos em geral, muitos usuários desconhecem as suposições exigidas para a validade dos resultados produzidos por cada técnica. Dessa forma, o primeiro desafio consiste em reconhecer os limites das conclusões causais que podem ser obtidas com determinado método, discutindo de maneira aprofundada as condições sob as quais tais conclusões são, de fato, válidas.
Além disso, muitos dos métodos mais difundidos na literatura de avaliação de impacto e inferência causal partem de cenários analíticos simplificados, nos quais, por exemplo, as observações são independentes e todas as características relevantes foram adequadamente mensuradas. Um desafio ainda maior está no desenvolvimento e na aplicação de métodos capazes de incorporar as complexidades presentes nos dados do mundo real, como dados faltantes, alta dimensionalidade, estruturas de dependência longitudinal e espacial, tratamentos ou exposições que variam ao longo do tempo, censura e variáveis não observadas diretamente (variáveis latentes), entre outras.
Como as pesquisas em Bioestatística podem impactar diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS)?
As pesquisas em Bioestatística oferecem métodos quantitativos robustos para apoiar a avaliação e o aprimoramento de políticas públicas, serviços de saúde e decisões clínicas baseadas em evidências. Para ilustrar, posso citar temas de alguns estudos dos quais participei ao longo dos anos. Alguns analisaram a mortalidade infantil em diferentes municípios brasileiros, com o objetivo de identificar desigualdades sociais e orientar a alocação de recursos para áreas de maior necessidade. Outros investigaram os impactos de programas como a Estratégia Saúde da Família e o Programa Mais Médicos sobre a assistência prestada à população. Também participei de estudos voltados ao monitoramento de doenças, como dengue e asma, que podem prever tendências e subsidiar respostas rápidas da vigilância epidemiológica e de outros setores do SUS.
Esses são apenas alguns exemplos do potencial dos métodos estatísticos, clássicos e inovadores, desenvolvidos e aplicados por pesquisadores da Bioestatística. Tais abordagens são fundamentais para responder a questões relacionadas à avaliação de políticas públicas, da gestão hospitalar e da atenção primária para o uso eficiente de recursos escassos, e à atuação em emergências sanitárias, como ocorreu durante a pandemia de COVID-19, com impactos diretos sobre o SUS.
Na sua avaliação, os pesquisadores no Brasil têm utilizado de forma adequada os métodos estatísticos avançados, como modelos preditivos, análise espacial, séries temporais e inferência causal, para apoiar decisões na saúde pública?
O Brasil dispõe de um amplo e valioso sistema de informações em saúde, com bases de dados sobre nascimentos, morbidade, mortalidade e fatores de risco para doenças crônicas. Somam-se a essas fontes pesquisas nacionais conduzidas pelo IBGE, como a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), além de inúmeros estudos desenvolvidos por pesquisadores da área da saúde em todo o país. No campo da Saúde Pública, o Brasil conta com uma comunidade científica altamente qualificada e reconhecida internacionalmente, incluindo importantes referências da Epidemiologia mundial.
As relações entre as comunidades de Estatística e Saúde Pública no país são amplas e históricas, e vêm se intensificando nos últimos anos. Essa colaboração crescente tem incorporado com rapidez métodos estatísticos avançados — como modelos preditivos, análise espacial, séries temporais e inferência causal — fundamentais para enfrentar questões estratégicas da saúde pública e da epidemiologia. A tendência, a meu ver, é de uma aproximação cada vez maior entre essas áreas do conhecimento.
Você tem uma forte atuação na formação de estudantes. O que considera essencial na formação de um bom estatístico hoje?
Minha percepção é que a formação de um bom profissional em Estatística exige, antes de tudo, uma base sólida em teoria estatística — abrangendo probabilidade, inferência, modelagem e estatística computacional —, além de conhecimentos consistentes em matemática, especialmente cálculo e álgebra, e em computação, com domínio de linguagens e sistemas de programação. Esses pilares continuam presentes nas diretrizes do Ministério da Educação para a formação do bacharel em Estatística. Essa base é fundamental não apenas para o aprendizado dos métodos clássicos de análise, mas também para que o profissional seja capaz de compreender, avaliar e incorporar novas metodologias, que surgem continuamente em ritmo acelerado. Para a aplicação prática desses métodos, o domínio de softwares estatísticos e ferramentas computacionais também é indispensável.
Além disso, independentemente da área de atuação, e especialmente no contexto da produção científica em Estatística, a proficiência em língua inglesa é altamente relevante, assim como a capacidade de comunicação e articulação em equipes multidisciplinares. Muitas vezes, o estatístico é responsável por traduzir resultados complexos em relatórios, apresentações e recomendações acessíveis a profissionais de diferentes áreas do conhecimento. A velocidade com que novos conhecimentos são produzidos supera, muitas vezes, a capacidade individual de absorvê-los. Temas em evidência hoje podem rapidamente ser substituídos por novas abordagens. Soma-se a isso o fato de que a Estatística possui um campo de atuação extremamente amplo, com interfaces em praticamente todas as ciências.
Por isso, o profissional da área precisa desenvolver aprendizagem contínua e capacidade de adaptação a novos contextos e ferramentas. Nesse processo, a pós-graduação — ao menos em nível de mestrado — desempenha papel importante no amadurecimento intelectual e na consolidação da formação técnica e científica. Na UFBA, contamos atualmente com o Programa de Pós-Graduação em Estatística e Ciência de Dados (PPGECD), criado para atender à crescente demanda por profissionais qualificados nessas áreas. Em síntese, profissionais com formação básica consistente têm melhores condições de se adaptar às transformações do mercado e de buscar capacitação permanente em métodos estatísticos cada vez mais avançados e inovadores.
O que você considera como sendo o maior propósito da sua atuação como pesquisadora e professora atualmente?
Espero continuar contribuindo, nos próximos anos, para a formação de capital humano, seja por meio da docência em componentes curriculares de Estatística na graduação, no mestrado e no doutorado da UFBA, seja pela oferta de cursos de capacitação e extensão. Também pretendo fortalecer e ampliar minha rede de parcerias interdisciplinares, uma vez que as questões científicas da área da saúde têm sido importante fonte de motivação e inspiração para os temas que venho desenvolvendo em minhas pesquisas nas últimas décadas.
Outra frente de atuação mais recente em minha trajetória é a divulgação de métodos estatísticos inovadores para um público mais amplo, que ultrapasse os limites da comunidade acadêmica, com o objetivo de disseminar a relevância da Estatística para diferentes áreas do conhecimento e aproximá-la cada vez mais da sociedade. Nesse sentido, estamos em processo de criação do site do LInCa, que deverá contribuir para a divulgação científica de diversos temas pesquisados pelo grupo. Espero, ainda, atuar de forma mais ativa junto à Academia de Ciências da Bahia, colaborando para o fortalecimento da ciência, da tecnologia e da inovação em nosso Estado, com ênfase na ciência estatística e em suas aplicações como instrumentos de promoção do desenvolvimento social, cultural e econômico.



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